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"Meninas só jogam de curandeiras!"

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As causas e os efeitos do maior estereótipo do universo gamer

"Meninas só jogam de curandeiras!"

Se você já jogou World of Warcraft (ou qualquer outro jogo multiplayer com classes), você já ouviu alguém falar algo do tipo. Como com a maioria dos estereótipos, existe um fundo de verdade nessa crença de longa data que aponta que mulheres gamers só escolhem jogar de curandeiras ou suporte, mas de onde vem isso? Isso influencia as escolhas de classe de novos jogadores (ou jogadoras) ou muda a forma como as mulheres navegam nas comunidades online? Tive a oportunidade de conversar com muitas jogadoras talentosas de WoW sobre colocar em caixas e categorizar mulheres em um arquétipo e como esses estereótipos ultrapassados afetaram suas experiências como jogadoras.

Mais do que apenas curandeiras

Ser uma gamer por si só é uma provação. Assédio, insultos e sexismo são comuns em todos os tipos de jogos online. De acordo com um estudo feito em 2018 sobre mulheres gamers no Reino Unido, aproximadamente um terço das mulheres entrevistadas foram assediadas ou abusadas com base em seu gênero. Entre 33% das mulheres entrevistadas, cerca de 10% delas foram ameaçadas de agressão sexual.

Gráfico da Byter. Fonte: Gamesindustry.biz

Identificar-se como mulher nesses espaços dominados por homens não apenas coloca um alvo nas suas costas, mas também coloca um peso enorme de grandes expectativas nos seus ombros. É óbvio que o assédio é inaceitável para mulheres que jogam World of Warcraft, mas os estereótipos, embora sejam menos irritantes, também causam problemas. Em particular, as mulheres que jogam têm ficado frustradas com a percepção de que "curar" outros jogadores é tudo o que elas podem fazer no jogo.

Enquanto muitas mulheres gostam de papéis de suporte em jogos, muitas também desejam sair desse molde. A Swan, por exemplo, uma jogadora de WoW de longa data e main Caçador Sobrevivência, gosta de jogar como Causadora de Dano. Mas ela percebeu que suas escolhas de classe e especialização dificultaram sua entrada em grupos Míticos+. "Sim, às vezes sinto que se eu fosse uma curandeira seria mais fácil entrar em grupos quando me identifico como mulher, porque é o papel que esperam que eu faça", ela disse.

A Dotty, uma devota tanque multiclasse em Ataques Míticos e Mítico+, concentrou-se em construir suas próprias comunidades inclusivas, nas quais as mulheres podem se sentir livres para jogar em qualquer classe que desejarem. Apesar disso, ela ainda luta com a percepção negativa das mulheres como tanques e com ter que entrar em comunidades tóxicas apenas para poder aprender, melhorar e jogar. "Ser uma mulher em qualquer espaço predominantemente masculino pode levar a muitas interações estranhas e pode limitar seu progresso no jogo de maneira ativa". “Saí de várias comunidades focadas em tanques nas quais não me sentia confortável por causa da inclusão casual de pornografia ou do uso de linguagem e insultos depreciativos, e estive em situações em que minha capacidade de receber feedback de jogadores mais experientes foi prejudicada porque eles estavam mais interessados no meu gênero do que em fornecer informações úteis.”

Segundo a Emsy, curandeira multiclasse da Liquid Guild, as mulheres que se conformam com o estereótipo de suporte não estão, necessariamente, mais seguras do que aquelas que optam por desempenhar outros papéis. “Para mim, o maior problema no WoW são as atitudes em relação às mulheres que jogam nas guildas, e não o estereótipo em si." No entanto, "o estereótipo definitivamente abre espaço para que as pessoas sejam sexistas, seja fazendo o papel de curandeiro ou não."

Broccoliz, uma especialista em druidas e líder de uma guilda de invasão mítica, disse: "Assim que você entra em um grupo e as pessoas percebem que você é uma garota, as pessoas esperam que você seja ruim no jogo (e você será mais julgada do que um homem por qualquer errinho)."

Essa é apenas a ponta do iceberg quando se trata das "atitudes em relação às mulheres" que a Emsy comentou anteriormente. A Spawntaneous, criadora de conteúdo e streamer, alimenta uma playlist no YouTube, atualmente com 33 vídeos, que documenta o tratamento que ela recebe de "colegas" jogadores quando eles descobrem seu gênero. A AnneMunition, especialista em FPS e criadora de conteúdo profissional, compartilhou um vídeo de três minutos das reações odiosas, e até violentas, que recebeu depois de usar o falar durante a partida para instruir seus colegas de equipe a executar uma boa callout.

Em outro exemplo revelador, a Women in Games Argentina fez com que três jogadores profissionais de Valorant, do sexo masculino, usassem um modulador de voz para ficarem com vozes femininas ao falarem com seus companheiros de equipe, e os resultados foram previsíveis: quando eles falaram com os moduladores, as pessoas da equipe pararam de cooperar e começaram a assediá-los. Depois de algumas partidas, um deles disse: “Não quero nem imaginar ter que viver isso todos os dias." Essas atitudes também vão além da tela e do servidor. Em 2022, a Nalipls, streamer de World of Warcraft,detalhou suas experiências sendo perseguida, doxxada e assediada por um fã que conheceu na Blizzcon.

Diante dessa pressão e assédio, as mulheres que permanecem na comunidade têm que trabalhar mais para serem ouvidas e respeitadas. Dotty disse: “Antes de criar meu próprio grupo de push, era extremamente comum que os pugs falassem sobre mim, desafiassem ou ignorassem minhas calls sobre rotação ou qualquer outra coisa, ou perdiam tempo dando em cima de mim ao invés de se concentrarem no jogo. Coloco muita pressão desnecessária em mim mesma para ter um bom desempenho e ser uma ‘boa representante’ para as mulheres que jogam, e isso limitou a minha competitividade em campeonatos em que participei porque tenho dificuldade em aceitar jogar casualmente.”

Para a Broccoliz, é tudo muito cansativo. "Pode ser exaustivo ter que 'entreter' o sexismo internalizado, e muitas vezes não intencional, de alguém só para poder jogar um jogo".

Esse estresse e pressão só reforçam o estereótipo de que mulheres não jogam bem. Apesar de muitos homens não perceberem, o objetivo, muitas vezes, é reforçar esse estereótipo - é uma forma de apontar um outro grupo como "pior" e desviar a atenção das lacunas em seu próprio jogo. O estereótipo reforça a ideia de que a mulher deve se limitar às funções de suporte, já que são "mais fáceis e menos importantes”. Levando em conta o quão cansativo pode ser apenas existir nesses espaços sendo mulher, não é surpresa que algumas jogadoras se limitem a aceitar isso.

O estereótipo também pressiona o outro lado, fazendo com que algumas jogadoras fiquem com medo de jogar como curandeiras. Desesperada para evitar qualquer associação com ser abertamente feminina, a agora especialista Monge Tecelã e escritora de guias do Wowhead, June preferiu evitar jogar de suporte por muitos anos. "De maneira indireta, o estereótipo afetou a minha escolha de personagem", ela relatou. "Antes de entender que era transgênero, fiz um grande esforço para evitar tudo o que não era 'másculo', como tentativa de provar minha masculinidade. E, com o tempo, isso inclui jogar como curandeira e suporte, já que foi algo que meus colegas de classe e familiares colocaram na minha cabeça. Ainda bem que não é mais o caso".

Um estereótipo que nasceu das normas de gênero

Muitos jogadores gostam de desempenhar todos os tipos de papéis em jogos multiplayer, e faria mais sentido que eles escolhessem sua classe com base no estilo de jogo e na estratégia, e não no gênero, especialmente se considerarmos o quanto esses estereótipos de gênero podem ser limitantes para pessoas de todas as identidades de gênero. Mas então, os dados limitados que temos mostram que as mulheres jogam, com mais frequência, como curandeiras e suporte.

Se os dados, um tanto limitados, são algo para continuar, as jogadoras tendem a desempenhar papéis de curandeiras ou de suporte um pouco mais do que papéis de causadoras de danos ou de tanques. A Dra. Jarryd Willis, professora da UC San Diego, realizou várias pesquisas entre 2021 e 2022 , indicando que as mulheres preferem os papéis de curandeiras acima de todos os outros de MMORPG e eram "significativamente mais propensas a sugerir que outras joguem de curandeiras do que os homens." O que os dados não nos dizem, porém, é por que as mulheres são mais propensas a jogar de curandeiras. Como isso aconteceu?

Dados e gráfico da Dra. Jarryd Willis. Fonte: Medium

A Broccoliz acredita que isso tem origem nas normas de gênero da sociedade. "Acho que muitas vezes, na vida real, se espera que as mulheres carreguem os fardos emocionais e os papéis de cuidadoras de maneiras que testem nossa força e capacidade de equilibrar um milhão de coisas ao mesmo tempo".

Há muito tempo as mulheres são associadas a funções e trabalhos de cuidadoras: qualidades que, pelo menos superficialmente, se encaixam perfeitamente nas funções de suporte e curadoras. Essas associações também alimentam a estética, fazendo com que os suportes (geralmente) sejam codificados como femininos, e os causadores de danos e tanques como masculinos. E, de certa forma, o trabalho doméstico, ainda esperado de muitas mulheres, é paralelo ao trabalho de uma curandeira. Manter todos os seus causadores de dano vivos realmente pode ser assimilado a sensação de ser uma babá!

Mas, ainda sim, é mais do que isso. A Emsy suspeita que o estereótipo se inclina para a ideia das mulheres assumirem esses papéis secundários indesejados, e acrescenta: "Muitos dos papéis de suporte/curandeiro nos videogames são muitas vezes indesejáveis para os jogadores em geral, por qualquer que seja motivo, o que foi definitivamente o caso com o papel de suporte no LoL, por exemplo, e talvez as mulheres se enquadrem nesses papéis porque estão acostumadas a preencher e fazer o que for necessário para o grupo".

A Swan viu isso como uma extensão da ideia antiga de que as mulheres "devem" apoiar os homens, nunca sendo o centro das atenções. Ela disse: "...talvez a maioria dos homens cis rotule as mulheres, e as minorias de gênero, como as que cuidam deles".

A June concordou e ainda reforçou. “O estereótipo parece vir da ideia selvagem de que as mulheres devem ser essas figuras dóceis e coadjuvantes, fazendo tudo o que podem pelos homens que estão ‘jogando o jogo real’, por assim dizer”, disse ela. “É um estereótipo criado para nos forçar a caber no molde que os outros construíram para nós, em vez de nos deixar ser quem somos. É um conceito totalmente desatualizado e deve ser descartado!”

Para Dotty, também se resume a mulheres começarem a jogar mais tarde do que os homens. “Muitas mulheres não são socializadas a participar de jogos desde novas..." Assim, selecionar uma função mais "codificada em segundo plano", como suporte, pode ser atraente para as mulheres que vão jogar jogos famosos pela primeira vez.

Essa teoria também se alinha com o marketing e a economia dos jogos. Mesmo lá atrás, em 2004, os videogames ainda eram comercializados principalmente para meninos e homens jovens, com jogos para o emergente "mercado não tradicional" (ou seja, meninas e mulheres jovens) apresentados principalmente como rosa e fofos e menos competitivos. Embora não haja nada de errado com esses jogos, jogadoras que cresceram com esse marketing de gênero provavelmente tiveram menos acesso a jogos do que seus colegas masculinos, e entraram no espaço com menos experiência e confiança.

A Emsy concordou e disse: "Devido à forma como as mulheres estão sub-representadas nos videogames em geral, não temos confiança para desempenhar alguns dos papéis que são mais agressivos e proativos, como duelistas no Valorant ou suporte no LoL, e acabamos voltando para os papéis mais passivos."

Dados e gráfico da Dra. Jarryd Willis. Fonte: Medium

Jogadoras que se identificam como mulheres podem desempenhar um papel de curandeiras com mais frequência, mas até mesmo as pesquisas da Dra. Willis mostram que a maioria das mulheres desempenham outras classes ou papéis. Em vez disso, as normas de gênero em torno da função de suporte levam jogadores, especialmente os jogadores do sexo masculino, a notar as curandeiras com mais frequência e assumir, sem nenhuma evidência firme, que jogadores de "suporte silenciosos" são do sexo feminino. Como as mulheres são frequentemente assediadas com comentários sexistas ou suas habilidades são fortemente julgadas quando revelam seu gênero, o estereótipo pode se reforçar porque esses estereótipos e suposições não são desafiados com tanta frequência.

Abrindo caminho para Comunidades Inclusivas

Os estereótipos existem por uma razão — muitas mulheres gostam de jogar como suporte, e isso é uma coisa boa! Mas as mulheres, como qualquer grupo, são uma multidão e querem ser capazes de fazer mais de uma coisa sem julgamento. Por isso é importante quebrar esse estereótipo.

Não existe uma maneira infalível de quebrar completamente os estereótipos, mas criar diálogos e incentivar a aceitação de todos é um começo. Quando suas amigas que se identificam como mulheres escolhem jogar tanques e dps, devemos incentivá-las. Também devemos reconhecer a complexidade e as dificuldades que envolvem as funções de suporte, porque não existem provas de que elas sejam mais fáceis do que outras funções. É como a Broccoliz disse: "Acho que o curandeiro é uma das funções mais difíceis que existe - as pessoas esperam que você não apenas lide com todos os mecanismos de uma luta da mesma forma que qualquer outra função, mas também responda rapidamente a erros imprevisíveis e tente salvar o dia."

Para muitas mulheres que jogam WoW, a solução é encontrar, ou até mesmo construir, comunidades inclusivas próprias, para protegerem umas às outras das formas comuns de assédio que a maioria das mulheres enfrentam ao tentarem jogar. A Swan buscou apoio em comunidades para ajudá-la a encontrar pessoas com a mesma opinião: "Isso não me afetou muito a longo prazo porque encontrei comunidades que me ajudaram e, por meio delas, consegui encontrar pessoas que me deixam jogar com elas."

E as pessoas à frente dessas comunidades também procuram zelar pelas minorias de gênero. "... Tive sorte de estar cercada de comunidades inclusivas incríveis que me trataram de forma justa e me avaliaram com base nas minhas habilidades e personalidade, ao invés de me pré-julgarem", disse Dotty. "No WoW, passei grande parte do tempo em posições de liderança e recrutando, de maneira ativa, mulheres para minhas comunidades, independentemente do papel em que elas jogavam."

Se há algo edificante a ser extraído dessas experiências, é que existem comunidades criadas por e para minorias de gênero. Nessas comunidades, as jogadoras podem encontrar algum alívio da pressão de serem suportes ou para curarem outros jogadores, e abrir um mundo de diferentes funções e oportunidades para todas. Obviamente, isso não é tão importante quanto eliminar o assédio baseado em gênero, mas também é importante. Na sociedade em geral, as mulheres são constantemente obrigadas a desempenhar esse ou aquele papel, pressionadas a ser dessa ou daquela maneira, e essas comunidades de WoW podem ser um alívio da constante pressão social. Os jogos podem servir tanto como uma fuga saudável do mundo quanto como uma forma de crescer dentro dele. Os jogos não deveriam ser uma forma de todos, inclusive as mulheres, escaparem do peso das expectativas de gênero?

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