Saintvicious: Dez anos e três carreiras na Liquid




A League of Legends Championship Series era completamente diferente há 9 anos.
Primeiro, tecnicamente ela nem se chamava LCS. As iniciais “NA” foram colocadas no nome para distinguir a liga da Europeia. A NA LCS tinha oito times, assim como hoje (embora esse tenha sido um desenvolvimento recente), mas esses times conquistavam seu lugar na liga com base em desempenho, nunca era garantido como no modelo de franquia moderno. Essa era uma época em que jogadores do topo do ranking podiam se juntar a mais quatro malucos igualmente insanos e tentar uma chance nas ligas grandes. Sem franquia, sem pagamentos milionários. Apenas o amor pelo jogo e um sonho de atrair centenas de jovens que estariam dispostos a colocar tudo em risco em sua busca.
Brandon “Saintvicious” DiMarco foi um dos muitos que conseguiram romper essa barreira. Ele faz parte de uma classe de ex-profissionais da LCS que se lembra de como as coisas eram diferentes e como permaneceram iguais. Hoje, Saintvicious comemora nove anos com a Team Liquid, mas sua carreira profissional antecede seu mandato em mais de três. Naquela época, ele se estabeleceu como uma parte insubstituível na história da LCS. Competiu em vários times (alguns bons, outros ruins), foi coach de alguns outros, se aposentou do League of Legends, começou a fazer lives, trocou de jogo para Dota Auto Chess, trocou de jogo novamente para Teamfight Tactics, adotou um gato, e construiu novos relacionamentos. Agora, Saint faz lives e cria conteúdo sobre o que ele quiser (a maior parte de TFT), e essa liberdade é exatamente o que ele busca nessa fase de sua vida.
Olhando para sua difícil jornada até agora, Saint claramente reconhece seu crescimento pessoal. Ele deu tudo de si competindo na LCS, assumiu riscos, se sacrificou, e até cometeu sua cota de erros, mas ele certamente não mudaria nada se tivesse a chance.
As sementes da carreira nos esports de Saintvicious foram plantadas em seu aniversário de 12 anos, depois de ganhar presentes de seus pais.
“Meu pai me deu um modem a cabo,” lembra-se Saint. “E eu pensei 'esse presente é uma porcaria,' mas aí minha mãe comprou StarCraft, que havia acabado de ser lançado e ela arruinou minha vida ao me dar esse jogo [risos]. Assim fiquei viciado em jogos, e jogava on-line... e é aí que a história começa.”
Antes, Saintvicious provavelmente preferiria estar do lado fora jogando futebol com os amigos. Mas aquele presente de aniversário despertou uma paixão nele, o que o levaria a melhorar o máximo possível em sua nova arena. Ele ficou tão bom que começou a competir em pré-torneios da LCS League of Legends em várias equipes enquanto ainda terminava a faculdade. Um desses times foi a Counter-Logic Gaming.
Após uma breve passagem como top laner pela Team SoloMid no início de 2011, Saintvicious passou seus primeiros dias de carreira fazendo a função de jungler para a CLG enquanto equilibrava o jogo e a faculdade. Ao contrário da reputação das orgs modernas, fãs de carteirinha se lembram disso como uma época em que a CLG era o time a ser vencido, em parte porque era a casa de alguns dos melhores jogadores da região. Na CLG, Saint jogou com muitos grandes nomes da América do Norte como Yiliang “Doublelift” Peng, Steve “Chauster” Chau, Joedat “Voyboy” Esfahani, Michael “Bigfatlp” Tang, e Cody “Elementz” Sigfusson. Na época, a NA era uma das regiões principais no League, e a CLG, um dos principais times internacionais — com Saintvicious e companhia se mantendo firmes no Champions Spring 2012 da Coreia e vencendo alguns torneios internacionais menores.
Perto do final de seu ano de graduação, cerca de metade de 2012, Saintvicious largou a escola para poder ir com tudo nos esports.
“Eu tinha acabado de ir para o banco da CLG,” disse Saintvicious. “O Steve, co-CEO da Team Liquid, me ligou e disse que estavam criando a Team Curse, haveria uma grande casa, e também teria tipo um reality show... Eu fui para a Califórnia por uma ou duas semanas, e ainda estava na faculdade naquela época. Então pensei, 'certo, vou largar a faculdade para fazer isso'. Ele meio que me convenceu e o resto é história".
Não é sempre que ouvimos falar de profissionais largando a faculdade quando estão tão perto de seu diploma. No caso de Saint, ele passou tempo na Marinha também, e tinha muito interesse em ciência do exercício; ele estava estudando para se tornar um cirurgião ortopédico.
“São tipo, 12 anos de estudo,” disse Saint. “Eu ainda estava no começo. Agora só jogo jogos como um idiota [risos]... Eu sinceramente era viciado em jogos, então só queria ver o quão longe eu chegaria. Eu senti que era realmente bom se comparado a todos os outros naquela época”.
Então, até onde ele chegou? Em 2012 e início de 2013, antes de a LCS começar, Saintvicious e a Team Curse (que eventualmente virou a Team Liquid) desbancaram times em uma série de torneios domésticos. Eles conquistaram alguns primeiros lugares em eventos como SoloMid Series e Season 5 National ESL Pro Series.
Saint rapidamente virou um nome familiar na LCS, e na comunidade global de League, como um jungler de alto nível. Sua reputação era uma mistura: visto como um dos melhores estrategistas, responsáveis por calls, e líderes da NA, mas também às vezes uma voz tóxica, dura e direta demais, com um histórico de errar smites decisivos. Parte dessa reputação ocorreu nos dias anteriores à LCS, um momento em que o League of Legends da NA era parte esportiva, parte reality show e muitas das discussões da equipe da CLG foram gravadas e enviadas diretamente para o YouTube. A pressão e atenção do público não tornaram as equipes mais pacíficas e poucos líderes de equipe passaram por essa era com reputações limpas. Ainda assim, Saintvicious não gosta de quem era na época, envolvido no mundo acelerado e de apostas altas do cenário competitivo de League.
“Vou ser muito sincero,” disse Saint. “Eu não gosto nem um pouco da pessoa que eu era quando jogava League. Eu era uma pessoa tóxica. Quero dizer, obviamente, conforme envelhecemos, sinto que ficamos cada vez mais tranquilos... Acho que quando eu jogava League, tudo estava indo rápido demais e era como se estivesse em um redemoinho.
Um exemplo de como as comunicações internas eram escancaradas no início do League. Até hoje, ainda não sabemos exatamente o que foi deixado de lado.
Independentemente de reputação, o time de Saintvicious na Curse era relativamente bem-sucedido. Ele ajudou a liderar a Team Curse a um 2º lugar na temporada regular e 4º lugar na final geral no split inaugural do time na Spring 2013. Depois disso, os resultados começaram a estagnar e Saint eventualmente mudou para a Curse Academy. Aquela equipe foi vendida para a Team Gravity no final de 2014 após vencer o torneio da Spring Expansion da LCS NA 2015.
E o seguinte split da Spring 2015 foi a última competição de Saint como jogador. A era inicial do League na NA foi difícil, cheia de batalhas internas e sem estruturas de treinamento. Saintvicious batalhou nela por tempo suficiente.
“Não acho que toda a estrutura de treino e esse tipo de coisa era muito bom,” disse Saintvicious. “Eu estava em burnout. Quando faço algo, sou um grinder e me esforço muito. Para ser bom no League é preciso investir nele uma quantidade de tempo infinita. Então acho que não conseguia acompanhar a quantidade de treino que eu precisava. Nunca tivemos treinadores de verdade, então era muito difícil ter uma fonte externa para ajudar a melhorar. Antes, era uma coisa mais de batalha interna. Dependia de você ser bom, e ninguém mais te ajudaria.”
Vindo de um histórico militar, a falta de padronização e estrutura de treino afetou muito Saintvicious, principalmente porque ele podia enxergar os efeitos colaterais. Foi um fator principal em sua decisão de eventualmente se afastar como profissional.
“Me frustrava muito ver que as pessoas tinham essa oportunidade única de uma em um milhão e não colocavam o coração em tudo o que faziam,” disse Saintvicious. “Acho que isso fez com que eu olhasse mais para as pessoas em vez de para mim mesmo... A frustração me cegou no que eu estava fazendo.”
Quando um bando de jovens adultos praticamente sem supervisão mora junto numa casa enorme e passa horas seguidas jogando, dá para imaginar as liberdades que eles acabam tomando com o tempo livre. Festas tarde da noite, bebidas, entre outras coisas, não eram atividades incomuns nessas GHs. A perspectiva conquistada dessa experiência serviu como uma ferramenta útil quando Saintvicious eventualmente virou treinador.
“No dia em que anunciei minha aposentadoria, recebi uma ligação de proprietários da Team Coast,” disse Saintvicious. “Falaram 'acho que você seria um ótimo treinador'... Sinto que se há algo que tenho, isso é uma ética de trabalho muito boa. Mesmo não entregando para eles o conhecimento máximo ou seja lá o que for, se você simplesmente der uma boa rotina — tipo um sistema para realmente melhorar, algo como ‘Ok, vou acordar, fazer isso, isso e aquilo, e estudar essas coisas’ — você dá direção. E se eles souberem o que precisam fazer, vão mostrar do que são capazes. Fiz isso por conta própria e não tive outras fontes externas. Eu só queria me certificar de que as outras pessoas tivessem isso.
Como eu disse, é uma oportunidade única na vida, não estrague, certo?”
Dedicar a vida a jogar um videogame no mais alto nível exige, é claro, um grande sacrifício, mas, para realmente aproveitar esse privilégio ao máximo, é necessário ter um certo grau de autoconhecimento. Todos os dias passados praticando, competindo e desfrutando do status e dos benefícios sociais que acompanham esse estilo de vida é outro dia investido por seus colegas na busca de um diploma, na construção de uma família ou talvez até iniciando um negócio. Essas são responsabilidades que o jogador profissional médio adia para uma versão futura de si mesmo, a fim de buscar níveis inimagináveis de grandeza. Existe um peso que surge com isso, e todos o carregam de forma diferente.
“Para ser bom, você precisa ser obsessivo,” disse Saint. “No League, você pode pressionar um botão, pode jogar com algumas pessoas razoáveis, e pode treinar infinitamente, nada pode te segurar. É isso o que você enfrenta. Se não estiver investindo cada momento acordado nesse jogo, você não vai conseguir acompanhar porque alguém vai fazer melhor. Ter que fazer isso por muitos anos como eu fiz, meio que me dá muita perspectiva. Você pode perder relacionamentos ou família, a pessoa com quem você está, todo esse tipo de coisa...”
Saintfoi particularmente eficaz em levar times para a LCS. Como treinador, ele levou a Coast e Apex em direção à classificação para a LCS, bem como classificou a Curse Academy como jungler.
Saint foi coach brevemente durante seu tempo na Curse, e aprendeu rapidamente após trabalhar nisso em tempo integral que ele gostava bem mais do que jogar. Ele achava o aspecto da mentoria gratificante e valorizava ver seus jogadores evoluírem e crescerem dentro e fora do jogo.
“Tenho muitos bons momentos de quando era coach,” disse Saintvicious. “Você vê alguém fazendo uma coisa, e aí, um mês depois, eles corrigiram o erro... tivemos uma coisa em que perdemos uma grande série de torneios, então alguém jogou um piano no chão ou algo assim. Eu precisei ter uma conversa sincera com a pessoa para tentar amenizar o problema de raiva dela, porque eu também tinha problemas com raiva quando jogava.”
Após treinar alguns diferentes times desde 2015, Saintvicious eventualmente se afastou de vez do cenário competitivo de LoL quando renunciou à sua posição de coach na FlyQuest em 2019. A renúncia veio após ele ter minimizado, durante uma transmissão ao vivo, o papel que questões de saúde mental podem desempenhar na vida de uma pessoa. Ele se desculpou por sua fala, mas era tarde demais, principalmente dada a reputação que ele construiu no passado. Anos em diversos ambientes hipercompetitivos e de alta intensidade haviam desgastado Saintvicious, e a ironia é que ele próprio estava enfrentando suas próprias dificuldades. A polêmica e a renúncia que se seguiu talvez tenham sido uma bênção disfarçada.
“Acho que na época eu não estava mentalmente em um bom lugar,” disse Saintvicious. “Tive um almoço de reunião com Steve... ele disse 'acho que você é muito bom explicando seu processo de pensamento e em educar, e temos esse novo jogo, TFT, saindo em breve... acho que pode ser muito bom para você'.”
Ele começou a fazer lives e a aprender a jogar Dota Auto Chess em seu próprio tempo, o que lhe permitiu abrir espaço para desacelerar e reinspecionar quem ele era e quem ele gostaria de ser.
“Agora que estou apenas transmitindo e fazendo minhas próprias coisas, parece que elas estão indo mais devagar e posso realmente dar um passo atrás e olhar as coisas e avaliá-las corretamente. Estou muito mais em sintonia comigo e o que está acontecendo, esse tipo de coisa.”
Saintvicious aplica sua habilidade de treinamento ao TFT.
Steve estendeu essa oportunidade de se juntar à Team Liquid e incentivou Saintvicious a explorar o conteúdo educacional sobre TFT, que rapidamente usurpou o Auto Chess como o principal jogo de batalha automática. Para Saint, tratava-se de uma oportunidade evidente de seguir com o que gostava de fazer, e sem esse impulso, talvez ele tivesse abandonado os esports e os jogos de forma definitiva.
“Acho que eu não teria feito toda a coisa de TFT ou continuado transmitindo se não fosse pelo Steve ter me encontrado, ter sentado comigo e me falado que ele acreditava no que eu estava fazendo,” disse Saintvicious. “Eu o agradeço por isso. Quero dizer, foi assim que eu cheguei aqui.”
Logo após o lançamento do TFT em 2019, Saintvicious rapidamente se estabeleceu como uma fonte direta de conhecimento sobre o jogo e como o meta estava se moldando em diferentes patches. Embora ele não mais necessariamente jogasse para competir no mais alto nível e vencesse torneios, ele ainda se divertia jogando e ensinando o jogo enquanto participava de torneios quando podia.
Olhando para trás, retornar à TL como streamer foi uma decisão fácil para Saintvicious, apesar de seu amor pela competição. Ele sempre foi alguém que se recusa a ficar estagnado, sempre busca o que pode fazer a seguir. Isso era algo que Steve entendia bem, e foi isso que atraiu Saintvicious para a TL como organização desde o início.
“Foi principalmente o Steve,” disse Saint. “Eu literalmente o conheço desde que ele criou a Team Liquid. Eu estava morando numa casa com um monte de caras, junto com ele desde o começo. Eu o conheço desde que ele está no cenário, então queremos trabalhar com pessoas que conhecemos... Tivemos nossos altos e baixos. Ele não é perfeito. Ele sabe que eu também não sou perfeito. Sinto como se conhecêssemos as fraquezas um do outro. Você sabe como é quando se está em um relacionamento com alguém, não? Você aceita as falhas do outro. Ele é uma pessoa muito diferente do que quando nos conhecemos, e eu sou uma pessoa diferente. Alguém que tem a paciência e compreensão para os outros é algo muito grandioso, entende? Ele dá espaço para as pessoas crescerem.”
Esse crescimento é algo que Saintvicious testemunho dentro de si ao longo de sua carreira de quase 13 anos nos esports. Ele se lembra dos dias de longas horas de treino, vitórias esmagadoras, derrotas devastadoras, conflitos com colegas de equipe, sacrifícios e riscos como chave de momentos de aprendizagem em sua vida.
[Leitura Relacionada: Por que a comunidade de TFT é tão amigável? e como Saintvicious encontrou uma nova comunidade.]
Hoje em dia, Saint é grato pelo tempo que ele pôde passar com seus amigos, jogando jogos de tabuleiro, e assistindo a shows de música ao vivo em Los Angeles. Ele é grato pela deliciosa comida coreana feita pela Chef Heidi no Alienware Training Facility da TL. Ele também é grato pelas boas e más experiências que teve como jogador profissional que o ajudaram a alcançar seus objetivos pessoais.
“Não gosto da ideia de dizer que você pode voltar atrás e mudar alguma coisa,” ele disse. “As coisas acontecem por um motivo, e você não seria a pessoa que é hoje se as coisas não tivessem acontecido no passado.”
Por enquanto, Saint transmite conteúdo de TFT, e tudo o que ele quer, sob a bandeira da Team Liquid enquanto aguarda visitas inesperadas de seu gato em seu teclado.
Quando perguntei se ele teria um conselho para profissionais atuais ou aspirantes à LCS, Saint respondeu sem hesitar.
“Acho que o conselho para qualquer coisa na vida é: simplesmente vá devagar, respire fundo, e veja o que está acontecendo, porque é fácil ficar preso em um ciclo vicioso ou se perder no meio da bagunça,” disse Saintvicious. “Seja você um profissional em algum jogo ou trabalho. As coisas começam muito rapidamente. Acho que é importante desacelerar e avaliar o que diabos está acontecendo em vez de simplesmente ficar envolto pelo momento. Pare um pouco, cheire uma flor.”