MSI 2019: Quando a Team Liquid fez o mundo acreditar




2019 foi um ano mágico para os esports. Bem, mais especificamente, foi um ano mágico para a Team Liquid. Nosso elenco de CS estava fazendo sua melhor performance até então, nosso time de PUBG tinha se estabilizado, o Hungrybox estava no seu terceiro ano liderando o ranking de Melee… e aí tinha o nosso time de League of Legends no MSI, fazendo a melhor campanha que a NA já teve em um torneio internacional, e protagonizando uma das maiores zebras da história do LoL.
Por anos, o LoL foi um dos principais destaques da TL. O Co-CEO, Steve Arhancet, chegou nos primórdios do LoL, quando seu potencial ainda não era reconhecido e o cenário competitivo era tão bagunçado que parecia um reality show. Ele começou como jogador profissional de Suporte e, por anos, foi o gerente geral de fato do time, quando ainda não estava claro para onde tudo aquilo iria — mas em 2019, tudo mudou. Não havia teto.
O único problema era que, por mais que a Liquid (ou a Curse) amasse o LoL, parecia que o LoL não nos retribuía esse amor. Passamos anos não só perdendo, mas perdendo dramaticamente — e quero dizer isso literalmente. Não que fôssemos um time horrível (raramente éramos), mas a maior parte dos nossos anos parecia um drama shakespeariano: viradas incríveis, mudanças repentinas no elenco, colapsos mentais, superstars e prodígios que viravam divas... antes de 2017, o legado da Team Liquid era mais sobre esses começos frustrados e finais dramáticos do que sobre vitórias.
Então, o que mudou? Assim que a Liquid atingiu o fundo do poço com um elenco que estava implodindo bem antes de um torneio que poderia rebaixar o time na liga, encontramos uma luz no fim do túnel. A TSM, de longe o melhor time na época — quão distante tudo isso parece agora, não é? — nos emprestou seu jogador de destaque, Doublelift. Ele acabou gostando tanto da Liquid como time que, no ano seguinte, nos ajudou a montar um super time.
Os próximos dois anos passaram como um grande borrão azul. Conquistamos quatro títulos nacionais seguidos, um atrás do outro, depois de anos de temporadas instáveis e quartos lugares. Naqueles anos, os splits da LCS eram ou atropelos ou sagas épicas — e a gente sempre parecia sair por cima. O que estava faltando, no entanto, eram títulos internacionais.
Para ser clara e sincera: para a NA, os títulos internacionais sempre faltaram — e ainda estão faltando. Mas a TL não estava só falhando em conquistar títulos; a gente mal conseguia fazer cócegas. E, sejamos sinceros, nosso principal rival (a Cloud9) geralmente tinha um desempenho bem melhor nos torneios internacionais. Chegou a um ponto em que, quando o time foi para o MSI depois de vencer a LCS pela terceira vez, teve torcedor da própria LCS que preferia que a TSM ou a Cloud9 tivessem ido no lugar.
Com Jensen na mid lane e CoreJJ no suporte, havia alguma esperança escassa de que o MSI 2019 seria diferente. No começo, porém, parecia mais do mesmo, o time passou da Fase de Grupos por pouco e levou 2 a 0 tanto da equipe coreana (SKT) quanto chinesa (iG). Quando o sorteio dos playoffs aconteceu e a Team Liquid pegou a Invictus Gaming, realmente pareceu mais da mesma história em um ano diferente.
Agora, você pode ter ouvido gente reescrevendo a história para pintar a Invictus Gaming como um time pior do que realmente era, mas não caia nessa. Esse time tinha um talento histórico para carregar partidas, vinha de uma vitória recente no Worlds 2018 e dominou a LPL Spring para se classificar para o MSI. Na Fase de Grupos do evento, ficaram 9-1 e só perderam para a SKT. Indo para os playoffs, tudo indicava que iG x TL já estava decidido de antemão, e que o único desafio real da iG era a SKT; dizer que a iG era a grande favorita seria até pouco.
Mas chegando na série, o Doublelift e o time estavam estranhamente tranquilos. Para muitos, isso parecia nada mais do que a arrogância típica do carry campeão da NA — mas havia mais por trás disso. Se a iG tinha alguma fraqueza, era a tendência de forçar demais suas vantagens muito cedo — além da bot lane. A Liquid, por outro lado, era construída em torno da sua bot lane e sabia punir muito bem os erros e avanços exagerados dos adversários.
Era meu primeiro ano trabalhando com a Team Liquid como escritora freelancer, e me lembro de ficar acordada até tarde da noite para assistir a essa série. Lembro de ter sido muito cautelosa com minhas esperanças, tão protegida em relação às minhas expectativas. Quando o time perdeu uma batalha na mid lane e foi para 4.000 de ouro — eu esperava pelo melhor, mas não esperava muito. É assim que a NA sempre perde, no fim das contas. Mas então, a iG não foi cuidadosa. Os jogadores fizeram fila para a Neeko de Impact. A TL virou a batalha, voltou para o jogo, e venceu.
No jogo 2, a mesma coisa aconteceu — a iG disparou na frente, mas a Team Liquid tinha uma comp forte para o final do jogo, que conseguia lutar bem pelos objetivos. Mas uma vez, exploraram os erros da iG para fazer um retorno. Neste momento, todos estavam sentindo: estava realmente acontecendo? Estávamos prestes a vencer o melhor time do mundo? Eu ainda não conseguia acreditar. Quando a iG se corrigiu no jogo 3 e não abriu mão da liderança, eu já havia começado a me preparar para a virada contra a gente. ("Bem, pelo menos lutaram!")
Só que essa virada nunca veio. Contra todas as probabilidades, a Liquid assumiu o controle do início de jogo e nunca desistiu. A Liquid não apenas venceu a última partida — derrotou a iG com tanta vantagem que provou ser indiscutivelmente o melhor time naquele dia. Parecia, naquele momento, que o céu era o limite. Parecia que poderíamos ganhar tudo.
Você provavelmente sabe, no entanto, o que viria a seguir. Você provavelmente já sabe que, do outro lado da chave, a G2 acabou surpreendendo a SKT, e que, apesar de parecer a melhor chance da NA em anos para um título internacional, nós não só perdemos para a G2, como perdemos tão feio que estabelecemos o recorde da Final mais rápida da história do LoL. (Bem, pelo menos eu fui dormir mais cedo.)
Por causa da surra e por ser um MSI, as pessoas acabam esquecendo o que aquele momento realmente significou. Não posso culpá-las. A virada brusca de herói para nada foi tão grande que praticamente apagou todas as outras histórias do momento. Isso fez as pessoas reescreverem a história, agir como se o declínio da iG em 2019 fosse inevitável e tivesse começado já no MSI (mesmo que, de novo, eles tivessem terminado a Fase de Grupos com 9-1). Fez as pessoas agirem como se a vitória não tivesse feito todo mundo falar que o Ocidente finalmente havia diminuído a diferença.
As pessoas se sentiram envergonhadas por acreditarem na TL, e, assim que a LCK e a LPL voltaram com tudo, por terem acreditado nos times ocidentais de forma geral. Todos nós ajustamos nossa visão retrospectiva para ficar realmente perfeita e classificamos aquilo como um golpe de sorte.
Mas eu não acho que essa tenha sido a lição certa. Acho que a lição verdadeira é que sempre há espaço para esperar o melhor, se deixar levar pelo momento, se convencer de que tudo é possível, e também se permitir sentir mais dor do que gostaríamos de admitir quando tudo desmorona. A lição certa é entender que nada disso é um acaso, uma aberração: é o jogo como pretendido.
Às vezes, acho que os fãs da NA esquecem que isso não é um conto. É um esporte, e você é o azarão. Deveria doer, na maioria das vezes. E deveria significar muito mais justamente quando não significa nada. Todo mundo pode descartar nossas vitórias como anomalias, mas é nossa responsabilidade preservar o que elas significaram no momento e acreditar que elas podem acontecer de novo.