Três anos de luta: Tudo sobre o nosso título mundial
.webp)
.webp)
.webp)
.webp)
A última vez que conversei com a equipe de VALORANT da Team Liquid Brasil foi no começo de 2024, quando elas estavam na jornada rumo às qualificatórias da liga oficial Tier 2 do país, o VALORANT Challengers Brazil (VCB). Naquela ocasião, destaquei o ótimo desempenho delas no Game Changers World Championship: um terceiro e um segundo lugar, e a impressão cada vez mais forte de que se mantivessem o ritmo, a terceira tentativa seria, enfim, a vez delas.
E foi mesmo.
Depois de ficarem de fora do mundial em 2024, a Team Liquid voltou ao palco internacional este ano com algo diferente - a gana era a mesma, mas desta vez veio acompanhada de uma convicção muito mais firme. E em Seul, elas finalmente ergueram o tão esperado troféu, derrotando suas rivais de longa data, a Shopify Rebellion Gold, em uma série tensa de cinco mapas que espelhou a dolorosa derrota de 2023 em casa. Desta vez, porém, a história foi outra: 2-3 antes, 3-2 agora.
Por um lado, pode-se dizer que foi um resultado inesperado, mas não exatamente uma surpresa. A Team Liquid continua sendo o time a ser batido no Brasil, apesar de adversários como MIBR tornarem a disputa cada vez mais acirrada. E quando você já tem um terceiro e um segundo lugar, o caminho natural é para cima.
E, como era de se esperar, nem o título mundial foi o bastante para deixá-las satisfeitas. Daiki e Joojina resumiram: “A busca ainda não acabou”
Logo após se tornarem campeãs, nem mesmo as próprias jogadoras parecem sentir que o título é real.
“Eu acho que a ficha ainda não caiu… às vezes nós ficamos conversando no grupo e falando umas para as outras que parece que foi um flashback", disse Joojina. “Foi muito rápido, aconteceu tudo muito rápido, e eu ainda não me sinto como uma campeã mundial".
“Eu não sinto que a gente deu um step up ou que a gente chegou num lugar onde nunca deveria estar”, acrescentou Daiki. “É justamente o oposto - chegamos num lugar onde tínhamos certeza de que tínhamos capacidade de estar há muito tempo. Então ainda não caiu a ficha de que a gente ganhou, mas ao mesmo tempo eu sei que a gente está onde a gente sempre deveria estar".
“Ainda temos muita coisa para fazer, muitos planos para o futuro, então não é como se tudo tivesse parado para nós.”
Dois anos batendo na trave moldaram este time de um jeito que nenhum campeonato por si só conseguiria. A ferida da final de 2023 nunca cicatrizou de verdade - principalmente para Joojina.
“Por a gente ter perdido por muito pouco, aquela final me doeu muito - por ter sido aquele ‘quase'”, disse ela. “Eu falava que preferia ter perdido de espanco do que ter perdido por estar tão perto, porque pareceu que estava nas nossas mãos e escapou".
Este ano, porém, algo mudou. Após o baque de 2024, a temporada de 2025 obrigou o time a ter uma visão diferente.
“A gente testou bastante coisa”, disse Joojina. “Formas de pensar dentro do jogo, como lidar com as situações, formas de resolver problemas e de receber feedbacks. Sinto que neste ano nós estávamos muito abertas a fazer isso".
Grande parte dessa transformação veio com a chegada do novo head coach, Napz. Partindo da base deixada por Palestra, ele trouxe uma nova estrutura - não uma substituição, mas uma reformulação - que deu à equipe a clareza que faltava.
“Ele mudou muito a questão de como a gente enxerga o VALORANT”, explicou Daiki. “Hoje nós temos protocolos que seguimos independente de mapa ou comp; é como se fosse uma base para a gente conseguir fazer coisas muito mais complexas, mesmo quando não estamos bem num mapa. Nós conseguimos nos entender melhor e saber o que cada uma vai fazer em determinado momento do jogo".
Outra mudança veio com a saída de Bstrdd, peça essencial do time desde o início. Jelly chegou para assumir sua função e trouxe algo igualmente valioso - o tipo de impacto que vence rounds que teoricamente já estavam perdidos.
“Ela joga absurdamente melhor quando está no meio do caos, e isso é muito diferente do resto de nós", disse Daiki. “Então quando o jogo está meio caótico ou a situação está meio difícil, ela sabe resolver e dá uma solução extremamente boa. Essa diferença, essa comunicação, esse dinamismo dentro do jogo agregou muito para a gente e facilitou muito a minha vida como IGL, particularmente. E na defesa, ela tem muita liberdade de chamar os rounds que ela quer - principalmente quando ela pega a Operator; ela é quem manda na defesa. Isso me ajudou muito também".
Entre disciplina, estrutura e, às vezes, caos, elas encontraram um novo tipo de equilíbrio.
“A gente é um time muito maduro e eu não acho que seja por falta disso que a gente acabou perdendo em 2023, mas eu acho que com certeza foi algo que fez a gente ganhar esse ano", disse Daiki.
O primeiro grande teste desta nova maturidade não veio na final. A semifinal da upper bracket contra a G2 Gozen gerou um dos placares mais surpreendentes do torneio: depois de dominar o primeiro mapa, a Team Liquid perdeu o segundo por 13-2.
“Esse foi o momento mais desafiador do campeonato para mim", admitiu Daiki. “Foi um choque. Durante o jogo eu senti que a gente não conseguiu fazer nada. Nada do que a gente estava fazendo estava dando certo, estava realmente sendo efetivo. E isso, no momento, me deu uma ansiedade. ‘Será que o próximo mapa vai ser igual?’”
O medo era real e familiar.
“Nós passamos por isso antes”, disse Joojina, lembrando de uma situação semelhante contra a MIBR no Split 2 do Game Changers Brasil. “A gente ganhou o primeiro mapa de stomp, entre aspas, depois a gente perdeu o segundo, e aí foi se afundando. Perdeu o terceiro, perdeu o quarto, perdeu a série. Então, quando a gente perdeu o segundo mapa para a G2, eu lembro de pensar, ‘não pode ser igual, não tem que ser igual’. E a melhor parte foi quando eu percebi que a gente amadureceu muito durante o ano e conseguiu voltar nessa série".
Essa estabilidade emocional carregou o time até a grande final pela upper bracket. Quando reencontraram a Shopify Rebellion Gold, dias após mandarem as rivais para a lower bracket, elas já sabiam que não precisavam de um discurso motivacional ou algo do tipo - só precisavam confiar no trabalho que tinham feito ao longo do ano.
“Eu acho que não teve uma frase que virou a chave na grande final”, explicou Joojina. “Muitas chaves aconteceram durante o ano, então eu sinto que quando a gente chegou na grande final, nós já estávamos preparadas, apesar do nervosismo, e já estávamos com tudo na cabeça".
Por três anos, a Shopify Rebellion Gold foi o antagonista perfeito da Team Liquid - seu maior rival, o time que nunca caía. A relação entre as duas equipes é um vai e vem que parece não ter fim.
“Para falar a verdade, eu fico muito feliz e muito honrada da gente ter uma rivalidade com elas”, disse Daiki. “Fora do jogo, todas elas são inspirações para mim. Eu acho elas jogadoras muito boas. Eu assisti bons jogos delas no Challengers. E só o fato de terem chegado lá, darem a cara a tapa, darem o máximo contra os jogadores homens… elas jogaram muito bem. Estar no mesmo patamar que essas meninas, ganhar delas na grande final, significa muito para mim".
Para Joojina, a rivalidade também traz propósito.
“A melhor parte do campeonato é ter alguém que você queira vencer. Ter alguém que bate de frente com você”, disse. “A gente só está onde a gente está porque a Shopify existe, porque a MIBR existe. Ter alguém que te faz ser melhor. Eu queria muito estar nessa final com as meninas [da Team Liquid]. Basicamente foi o mesmo placar, 3-2, só que agora a gente levou a vitória. Para mim essa ferida [de 2023] se curou completamente".
Apesar da possível carga emocional de enfrentar a Shopify em mais uma final internacional, a psicóloga e coach de performance da Team Liquid, Natália, comentou que a familiaridade do confronto poderia ser uma vantagem para o time. Mas, no fim, não foi isso que definiu o resultado.
“Eu acho que, sinceramente, nesse Mundial, a gente não se importava muito com quem a gente estava jogando contra", disse Joojina. “Nós estávamos tão focadas em nós mesmas - naquilo que estudamos e aprendemos - que, independente do time que viesse, nós iríamos fazer o nosso jogo. Tanto que o que a Daiki falou sobre os protocolos, o que a gente chama de ‘dez mandamentos’ - eles vão funcionar em todos os mapas. Não importa o time, aquilo sempre vai dar certo. Então, apesar de ser um time que a gente já tinha jogado contra, eu a gente estava muito confiante e muito tranquila".
Esses mandamentos tinham menos a ver com estratégia e mais com identidade.
“Um deles, acho que o mais marcante, é que (...) no 5v5, você tem total liberdade - e isso qualquer uma de nós - para atirar x1 durante o round", explicou Daiki. “Então, obviamente, se você está vendo que tem quatro pessoas na sua frente, você tenta evitar, mas se você sabe que você está contra uma pessoa, e você pode tirar esse x1 com ela, você tira".
“Ou se a gente sabe que o padrão do outro time é 3-1-1, por exemplo, independente de quem seja, se for a Joojina, se for a Jelly, se for a Isa, pode atirar o x1, pode trocar tiro. E principalmente: ser corajoso. Não peida na farofa. É isso".
Napz foi quem trouxe essa filosofia - e isso mudou tudo. A partir daí, pouco importava quem estaria do outro lado na grande final.
“Acho que cai muito no que a Joojina falou”, continuou Daiki. “Era indiferente o time que a gente ia jogar contra, de verdade. Se fosse contra a Shopify, tinha a questão da vingança. Se fosse contra o MIBR, tinha a questão de se provar mais uma vez. Mas enquanto a gente estava esperando o adversário, poderia ser qualquer um dos dois times. Não é algo sobre o qual a gente estava pensando muito".
Se os mandamentos davam o tom dentro do servidor, outro ritual ajudava a manter o time com os pés no chão durante o bootcamp e ao longo de todo o campeonato. No fim de cada dia, elas preenchiam post-its com palavras que resumiam os pontos altos, baixos, aprendizados e intenções daquele dia.
“A gente fez isso do começo do bootcamp até o último dia da competição. Por volta de 17 ou 18 dias”, disse Daiki. “Se a gente tinha um dia muito estranho, a comunicação estava ruim, a gente escrevia: ‘comunicação'. Nós sabíamos que era algo que tínhamos que prestar atenção para o dia seguinte. Teve um dia que o individual estava, meu Deus, pinagem demais. E a gente colocou: ‘individual está abaixo’. No dia seguinte, todo mundo focou no individual".
“Também teve ‘propósito', por exemplo. A gente tinha que colocar propósito nas coisas que a gente estava fazendo. (...) Tinha os nossos combinados com o time. Ou seja, a gente tinha que sair com o time; a gente tinha que ter os nossos momentos. A gente tinha que ter foco. E era um combinado que a gente tinha uma com a outra para poder fazer dar certo. (...) Isso fez muita diferença porque no fim nós vimos que o que estava ruim no começo ficou bom no final.”
No centro de tudo isso - da estrutura aos rituais, do caos ao controle - está Daiki.
Quando tinha 16 anos, ela escreveu em sua bio da Twitch: “Oi, eu sou a daiki, tenho 16 anos e um dos meus maiores sonhos é ser reconhecida pelo meu potencial in game”. Hoje, coroada MVP do mundial, sua bio no X (Twitter) diz: “10x 🏆 // WORLD CHAMPION.”
“Eu fico muito orgulhosa de mim mesma, principalmente por voltar um pouco atrás. Eu consigo lembrar exatamente quando eu escrevi a minha bio da Twitch - eu estava tentando começar a fazer live para as pessoas me conhecerem mesmo, para ver que eu sabia jogar, que eu sabia algumas coisas,” ela disse. “E do nada teve esse salto, eu ganhei alguns títulos, e hoje sou campeã mundial. Eu consigo me ver voltando no tempo e me admirando, sabe? Acho que isso é o mais louco de tudo. Na verdade, eu tenho plena consciência de que eu consegui seguir um caminho muito bom, eu consegui fazer boas amizades, eu consegui escutar muito bem as pessoas que estavam em volta de mim. E com certeza a mini Daiki está muito orgulhosa - não só do resultado, de ter vários títulos, de ser campeã mundial, mas do processo inteiro. Eu fui super receptiva, eu sempre estava ali para aprender, Eu estou muito mais feliz de não ter perdido a essência e sempre estar buscando melhorar"
Pedi a Daiki e Joojina para tentar descrever a jornada deste ano em uma só palavra. Ambas chegaram à mesma: “Acredita”.
“Falamos muito disso com a psicóloga no grupo - acreditar em cada segundo, em cada round, em cada mapa, em cada série", disse Daiki. “É isso aí".
Essa crença segue alimentando o time na busca por objetivos cada vez maiores. Afinal, elas disseram desde o começo: a busca ainda não acabou.
“Apesar de termos vencido o campeonato, eu não acho que a gente foi o time perfeito", disse Joojina. “A gente errou muito. E eu gosto disso - eu gosto de ter coisas para resolver, de poder melhorar. Eu gosto de saber que a gente não está no auge. A gente chegou no topo do Game Changers, mas não é o topo do VALORANT. E a gente quer muito mais. A gente quer participar do Challengers, chegar no VCT. Então, ainda tem muito caminho para andar - e eu acho que essa é a parte mais gostosa de todo esse campeonato".
“Ganhar o Game Changers World Championship realmente era um dos meus sonhos, um dos meus objetivos", acrescentou Daiki. “Mas eu ainda tenho muitos outros. Como a Joojina falou, classificar para o Challengers e para o Ascension - todos são objetivos que eu tenho. Então, a gente ainda tem muita coisa pela frente. Eu quero muito mostrar que a gente é capaz. Porque eu sei que já mostramos isso várias vezes em treinos, nos campeonatos e tudo mais. Realmente só falta acontecer. Falta a gente quebrar essa barreira mental - eu acho que é muito mais sobre mental do que sobre estratégia ou mecânica. Eu acho que a gente tem muita capacidade de estar no mesmo patamar com os caras".
Que existe um palco maior esperando por elas, não há dúvida. Mas ambição não caminha sozinha - e Daiki logo volta o olhar para algo além da própria trajetória do time: o futuro do cenário brasileiro do Game Changers, do qual elas são parte fundamental desde o início.
“Eu estava olhando um pouco o Twitter esses dias e notei que as orgs do Game Changers saíram do cenário, mandaram as meninas embora, e isso me deixou muito chateada", ela disse. “Esse realmente foi o melhor ano do Brasil no cenário inclusivo. A gente tem muito talento. Dá pra montar times muito competentes apenas com jogadoras que estão F/A. Eu queria dar um destaque pra isso e, inclusive, agradecer a Team Liquid, que está investindo no cenário desde 2022. Mesmo quando a gente perdeu ano passado, a TL não deixou de acreditar e apoiar a gente. A Liquid poderia facilmente ter nos mandado embora quando perdemos o Game Changers Brasil no ano passado, mas não foi isso que aconteceu. Eles continuaram conosco, acreditaram em nós. E hoje fomos campeãs mundiais. Sou muito grata a Team Liquid e espero que outras orgs possam fazer o que a Liquid fez por nós".